terça-feira, 24 de maio de 2011

Fatos reais


desenho de 2004. Não mudei muito desde então.



- Cadê a resenha?
- Não escrevi, fiquei com medo. O medo paralisa, sabe como é.
- Paralisa a inteligência ficar repetindo clichês, isso sim.Medo de quê?
- ... de... revelar a minha ignorância, minha limitação intelectual. Fiz uma breve pesquisa e constatei que me falta base para escrever uma resenha do jeito que gostaria de ler, caso a visse publicada por aí.
- Ok, breve pesquisa aonde?
- ... ué, aonde mais senão no Google?


O silêncio e o olhar, o sorriso de escárnio se formando. Antes que o professor respondesse, sacou rápido:
- Mas eu sabia que não era o suficiente. Que devia ter ido à biblioteca, visto livros, pesquisado mais a fundo.

- "Visto" livros ou "lido" livros?

- O senhor entendeu o que eu quis dizer. Mas não tive tempo. E tenho tanto medo de escrever e expor uma idéia pífia, que prefiro me abster.

- Mas este curso é de crítica de arte, como espera concluir o curso sem praticar a crítica?

- Me satisfaço só assistindo a sua aula.

- E vendo livros? Passando rapidamente por assuntos no Google? Com que intenção se matriculou neste curso?

- Queria conhecer o que faz um Crítico. Passei boa parte da vida lendo-os no jornal, e várias vezes, na falta de conseguir ir a um espetáculo, uma exposição, ou mesmo ao cinema, podia me satisfazer através dos olhos e do julgamento de um bom crítico que conseguia ver coisas que eu jamais veria.

- E nisso você deixou de ter as suas opiniões. Parou de pensar por si?

- Bom, nunca fui muito confiante nas minhas capacidades mentais. Já tive um estranho me chamando abertamente de "Burra" em menos de 5 minutos de convívio, e aceitei o veredicto. Mais tarde um ex-chefe (para quem trabalhava há um mês) confirmou. Fora que nunca me senti capaz de engatar 2 minutos de conversa. Mas tenho opiniões sim, e bem fortes, só que a respeito de mim mesma.

Sorria pensando que conseguira um fio de dó. Era disso que vivia, afinal. Queixava-se de tudo na vida: do frio no inverno, do calor no verão. Nunca se preocupou mais com o próximo do que com a sua auto-destruição. Isso sim tomava 90% de seu tempo, quando não se distraía na Internet, tentando levar a mente a outras pradarias longe daquele chicote imaginário que usava para se açoitar, o couro de palavras mais duras que nem inimigos lançariam. Imaginava-se caída, morta, e pessoas conhecidas murmurando sobre como já foi tarde. Sentia um prazer confirmar que sua vida foi desprovida de significados na vida dos outros, e que partia sem remorsos. Nem o cachorro sentiria sua falta.

Esperava uma resposta, talvez um afago. Mas nem em uma conversa imaginária conseguia boas respostas, afinal não estava à altura da inteligência e capacidade de argumentação que seus interlocutores teriam na vida real. Na sua imaginação limítrofe, até Shakespeare teria a eloquência de um Zina. Conformou-se com o fato de não ter uma resenha para entregar ao professor, pensou no diálogo que não teria com ele, entre tantos diálogos já imaginados e jamais iniciados, e saiu rumo à aula de mãos abanando.

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Uma triste atualização neste texto, em 31/01/2011: não fui à aula de mãos abanando. Faltei por vergonha. Perdi uma aula riquíssima graças à inteligencia do professor e a facilidade com que comunica tamanha bagagem cultural aos alunos. Sete meses depois, esse professor, que era também um escritor e jornalista brilhante (só me inscrevi nestas aulas pois era leitora assídua de sua coluna no jornal.) faleceu, repentinamente, levado por um AVC aos 41 anos. Perdi a oportunidade única de ter um texto meu avaliado por ele, achando que teria outras chances, já que a vida parecia seguir e ele daria outros cursos, um deles eu me matricularia e faria até o final depois de passar por um psicanalista que resolvesse meu problema de autocrítica destrutiva. Mas a vida - ou a morte - não esperou.

"a gente perde tanto tempo e tantas oportunidades, nao é?" É, Fabi... Engraçado que eu lia os textos dele, às vezes não concordava, às vezes concordava com um sorriso, me emocionava, e nunca fiz um comentário no blog dele. Às vezes eu penso que vivo na mesma época que um monte de gente que admiro, e o que me impede de tentar um contato, trocar uma idéia, fora a vergonha que me assola?

3 comentários:

Lu Cafaggi disse...

nossa, me identifiquei muito com seu texto. também já criei vários desses diálogos imaginários!
e me identifiquei com todas essas inseguranças também. a gente precisa dar um jeito nelas, né?

Eiko disse...

Oi Lu, obrigada pelo comentario! Como dar um jeito? Eu estou pra ver um psicólogo, rs.

bjos e desculpe qqr coisa!

Fabiana Faiallo disse...

Somos 3 =( Sei como é se sentir assim... a gente perde tanto tempo e tantas oportunidades, nao é?

Vencer esse monstrão é um caminho longo, eu to lutando tbm =)

Boa sorte pra nós!!